MITO, NO ÂMBITO DA CULTURA OCIDENTAL
Como processo de compreensão da realidade, o mito não é lenda, pura fantasia, mas verdade. A verdade do mito, porém, resulta de uma intuição compreensiva da realidade, cujas raízes se fundam, na emoção e na afetividade. Nesse sentido, antes de interpretar o mundo de maneira argumentativa, o mito expressa o que desejamos ou tememos, como somos atraídos pelas coisas ou como delas nos afastamos. Para melhor circunscrever o conceito de mito, precisamos de outro componente – o mistério –, pois ele sempre é um enigma a ser decifrado e como tal representa nosso espanto diante do mundo.
Considerados há muito tempo como antagônicos, mito e filosofia protagonizam atualmente uma (re)conciliação. Desde os primórdios, a Filosofia, busca do saber, é entendida como um discurso racional que surgiu para se contrapor ao modelo mítico desenvolvido na Grécia Antiga e que serviu como base de sua Paideia (educação). A palavra mito é grega e significa contar, narrar algo para alguém que reconhece o proferidor do discurso como autoridade sobre aquilo que foi dito.
VIRGEM APARECIDA
Corria o ano de 1717. O Conde de Assumar, Governador de São Paulo e Minas Gerais, era esperado em Guaratinguetá. Os pescadores da vila forma avisados de que deveriam trazer o melhor peixe para a refeição do Governador e sua comitiva.
Domingos Garcia, João Alves e Filipe Pedroso, moradores nas margens do rio Paraíba, cumpriram a ordem das autoridades, partindo de manhã cedo. Logo que chegaram ao meio do rio, lançaram nas águas a rede escura da tarrafa. Repetiram os lanços muitas vezes. E nada de peixe. Os pescadores já estavam desanimados, quando sentiram que a rede tinha envolvido alguma coisa. Retirando-a do rio, os pescadores viram, enrolada no tecido da rede, uma imagem feminina de barro cozido. Os homens tinham pescado o corpo de uma santa.
Faltava-lhe, porém, a cabeça. Pouco adiante, outro lanço da rede trouxe à tona a cabeça da santa. Era uma imagem de Nossa Senhora, de invocação desconhecida, e obra de um santeiro anônimo.
Depois do precioso achado, o peixe abundou na rede dos pescadores. Cada lanço trazia para a canoa uma torrente de peixes, grandes e prateados. Antes do cair da tarde, foi preciso terminar a pescaria, porque a pequena embarcação mal se podia suster à flor das águas.
Os pescadores desceram a terra, cantando de alegria. Filipe Pedroso ficou com a imagem. Chamaram-na Virgem Aparecida, porque “apareceu” para a devoção do povo.
Filipe Pedroso a conservou em sua casa, em Lourenço Sá, durante seis anos. Depois, foi morar em Ponte Alta e aí venerou a imagem durante outros nove anos. Finalmente, fixou-se em Itaguaçu, lugar do achado, e aí a deu ao seu filho Atanásio Pedroso.
A Virgem Aparecida presidia às orações domésticas na humildade vivenda do filho do pescador. Uma noite, uma lufada de vento apagou as duas velas que iluminavam a imagem. Silvana da Rocha levantou-se para reacendê-las. Subitamente, as velas resplandeceram sozinhas.
A fama da imagem milagrosa se espalhou. O lugar em que ela se achava passou a chamar-se Aparecida. O vigário de Guaratinguetá, padre José Alves de Vilela, fez construir a primeira capelinha da Virgem, Aparecida em 1743.
Milagres sucessivos levaram o nome da santa imagem a todos os recantos do Brasil. A antiga capela foi substituída por uma linda igreja, transformada, depois, em basílica. E, sob a invocação de “Nossa Senhora da Conceição Aparecida”, a imagem achada nas águas do rio Paraíba foi declarada pelo Papa Pio XI, em 1930, a “Padroeira de todo o Brasil”.
Referências: JARDIM, Alex Fabiano Correa & BORGES, Ângela Christina & FREITAS, Gildete dos Santos et al. Filosofia da Educação.
SANTOS, Theobaldo Miranda, 1904-1971.
Lendas e mitos do Brasil / Theobaldo Miranda Santos. – 14. – São Paulo : Editora Nacional, 1994.